TERRIBLE TWOS: os terríveis ou os maravilhosos 2 anos?

1975219_606422182775661_306976342_n(por Taicy Ávila, psicopedagoga)

            Nas proximidades do aniversário de 2 ou 3 anos (algumas vezes um pouco antes, outras vezes muito depois dele), alguns pais vêem-se às voltas com novos desafios no desenvolvimento e criação dos seus filhos. Aquele bebê fofo, dócil e curioso, parece ter sido abduzido por ETs e substituído por um “gremlin” tresloucado. De repente, a criança quer fazer todas as suas atividades sozinha, mesmo que ainda não tenha capacidade para muitas delas. Parece não querer aceitar a rotina e as regras impostas pelos adultos, e sim fazer as suas próprias regras. Se você perguntar à criança se ela quer escovar os dentes ou tomar banho, corre o sério risco de ouvir um “NÃO!” em resposta. O mesmo ocorre se você lhe perguntar se ela quer fazer uma refeição ou ir pra cama: mesmo que a criança esteja visivelmente morrendo de fome ou sono, é bastante provável que ela se negue a fazê-lo.

Esse comportamento muitas vezes tempestuoso, impulsivo e opositor não é uma característica apenas do meu ou do seu filho. Pelo contrário, parece ser universal. Todas as crianças pequenas (leia-se: até os 6 anos de idade) são assim, em maior ou menor medida. A boa notícia é que, à medida que elas crescem, aprendem e amadurecem, tornam-se cada vez mais cooperativas. O comportamento opositor na primeira infância é tão comum que algumas pessoas passaram a se referir a essa fase como os “terrible twos” (os terríveis dois anos) ou ainda como “adolescência da infância”.

Embora sejam repetidas à exaustão, essas denominações não parecem ajudar aos pais confusos, às voltas com a mudança de comportamento dos filhos. Em nada adianta rotular a fase de desenvolvimento pela qual a criança está passando como “terrível”, se você não compreende os motivos dela, nem o que a criança pode estar ganhando em meio ao aparente caos. Nem adianta simplesmente afirmar que “é uma fase e vai passar”, se você não sabe o que fazer para ajudar a criança a superá-la. O presente texto é uma breve tentativa de ajudar pais e professores nessa difícil tarefa: compreender o estágio de desenvolvimento da criança e aprender a lidar com ela da melhor maneira possível. Ao final, damos algumas dicas práticas para lidar com situações cotidianas durante esse estágio, a partir das queixas mais comuns apresentadas pelos pais.

O dilema da criança pequena.

Proponho um exercício: vamos tentar olhar as coisas pela perspectiva de uma criança de 2 ou 3 anos. Ela finalmente tem mais independência, já adquiriu a marcha independente (a essa altura ela não apenas anda, mas pula, corre e faz coisas que até Deus duvida), já adquiriu uma fluência muito maior na linguagem oral (embora ainda vá desenvolvê-la muito mais), talvez esteja até mesmo aprendendo a usar o vaso sanitário. Então, por um lado, ela se sente muito mais independente, “gente grande” mesmo. Por outro lado…

Ela olha ao seu redor e sente-se um pequeno anão incapaz. TUDO à sua volta, por todos os lugares da casa e também nos locais públicos, foi talhado para uso e conforto no tamanho dos adultos, e não no dela. Isso vale desde a pia de casa, até a mesa do restaurante: ela não alcança nada sozinha. Além disso, um monte de coisas legais que ela vê as crianças mais velhas fazerem, desde as brincadeiras até ler e escrever, ou simplesmente amarrar um cadarço, ela ainda não consegue fazer. E por tanto ela se sente um bebê (mas detesta sentir-se assim).

A criança pequena enfrenta o conflito entre dependência e independência. A luta entre ser pequeno demais para fazer tudo sozinho; e ao mesmo tempo ser grande demais para se comportar como um bebê. Enfim, a criança pequena NÃO ESTÁ testando a paciência de ninguém, não quer ignorar todos os limites que lhes impõem, não quer manipular os adultos, nem quer que façam tudo do seu jeito como se ela fosse uma pequena ditadora. Ela na verdade está apenas enfrentando um monte de conflitos e ainda é muito imatura para eles. Somente isso!

Ter isso em mente poderá lhe ajudar a não ver o comportamento aparentemente negativo do seu filho com alguma espécie de desafio à sua autoridade, ou menos ainda como característica inerente a ele, rotulando-o de birrento, manhoso, mimado ou mandão. Mas sim como uma etapa importante do seu desenvolvimento, onde ele precisará da sua ajuda paciente a amorosa pra construir a sua personalidade e autonomia.

Wallon e o desenvolvimento humano: entendendo a criança pequena negativa e obstinada.

O médico, psicólogo e filósofo francês Henri Wallon propôs uma teoria do desenvolvimento humano que abarca a afetividade, a inteligência e o movimento corporal são indissociáveis. Na teoria de Wallon, o desenvolvimento se dá em estágios que alternam períodos em que a energia está mais voltada para o seu interior, e outros em que está mais voltada para a socialização:

“Para Wallon, o surgimento de uma nova etapa do desenvolvimento implica na incorporação dinâmica das condições anteriores, ampliando-as e ressignificando-as. A criança atravessa diferentes estágios que oscilam entre momentos de maior interiorização e outros mais voltados para o exterior.” (GRANDINI, p. 34)

A passagem de um estágio do desenvolvimento para outro, segundo Wallon, se dá em momentos de conflito, que podem causar aparentes “crises” no desenvolvimento:

“Segundo a perspectiva walloniana o desenvolvimento infantil é um processo pontuado por conflitos. Conflitos de origem exógena, quando resultantes dos desencontros das ações da criança e o ambiente exterior, estruturado pelos adultos e pela cultura. De natureza endógena, quando gerados pelos efeitos da maturação nervosa. Até que se integrem os centros responsáveis por seu controle, as funções recentes ficam sujeitas a aparecimentos intermitentes e entregues a exercícios de si mesmas, em atividades desajustadas das circunstâncias exteriores. Isso desorganiza, conturba, as formas de conduta que já tinham atingido certa estabilidade na relação com o meio.” (GALVÃO, 42)

O bebê nasce em um estado de fusão com a mãe, chamado simbiose. Ele ainda não sabe que é uma pessoa separada da mãe, e vai fazendo essa diferenciação de forma lenta e gradual durante seus dois primeiros anos de vida. Ao alcançar o segundo ano, a criança acabou de romper o processo inicial de fusão simbiótica, ela descobriu que é uma pessoa separada da mãe, um individuo, chegado ao chamado estágio do personalismo, inde a sua energia está voltada para a pessoa, para o enriquecimento do eu e para a construção da personalidade. É caracterizado pela exploração de si mesmo, como um ser diferente dos outros, iniciando assim o processo de discriminação entre eu e outro.

Na teoria de Wallon, a construção do eu depende essencialmente da relação com o outro. O outro é necessário para ser fonte de admiração, imitação, incorporação. E também é necessário para ser negado, no sentido de diferenciar-se dele, como uma espécie de instrumento de descoberta de si própria. A criança construirá a sua própria personalidade tanto através de mecanismos de negação (para diferenciar-se do outro) quanto através de mecanismos de imitação, através do faz de conta (para incorporação do outro).

Por isso a criança pequena pode passar a recusar tudo o q os outros (os adultos) parecem lhe impor, por isso ela é negativista: pra tudo diz “NÃO!” Para ajudar a criança a superar esse conflito, é importante que os adultos compreendam que ela não está fazendo isso por birra ou simplesmente para irritar. A negação é um exercício pra a construção de uma personalidade e identidade próprias.

O quê fazer? Vamos às dicas práticas!

Agora que já conversamos sobre o estágio de personalismo e você pôde compreender o comportamento aparentemente negativo e obstinado das crianças pequenas, vamos pensar juntos sobre ações práticas para lidar com as situações de conflito mais comuns entre pais e filhos pequeninos.

    • “Meu filho quer fazer tudo sozinho e não deixa que eu ajude.”

Como dissemos, seu filho acabou de adquirir independência em vários aspectos muito relevantes, como a marcha e a fala. Portanto, é claro que ele também vai querer independência nas mais variadas atividades rotineiras, como uma extensão de sua recém conquistada autonomia: ele vai querer tomar banho, escovar os dentes, vestir-se, calçar-se sozinho, por exemplo. Não devemos tolher essas iniciativas, ao mesmo passo que não devemos obrigar a criança a fazer tais coisas sem o nosso auxílio.

Ás vezes estamos apressados ou atarefados com nossos compromissos de adultos, e por isso nunca deixamos quer nossos filhos façam nada sozinhos, por demorarem demais. Ou nos irritamos com a criança porque ela está demorando mais de 10 minutos para calçar o sapato ou abotoar a blusa. Sob o nosso ponto de vista, abotoar a camisa sozinho parece um tolice, queremos que a criança o faça de uma vez, ou que ela nem tente e nos deixe fazermos por ela, pra evitar atrasos. Mas, para a criança pequena, o sentimento de conseguir fazer algo que antes ela não sabia é de grande importância para a sua auto-estima.

Valorize esses pequenos momentos! Procure organizar a rotina diária proporcionando esta autonomia a ele: se necessário, coloque o despertador para tocar mais cedo par ir à escola, ou comece a se preparar para um eventual passeio com bastante antecedência, de modo que a criança possa se vestir e calçar sem pressa.

Também há no mercado brinquedos pedagógicos onde a criança pode exercitar essas habilidades com prazer, nos seus momentos de lazer: cubos táteis, livrinhos e placas de alinhavo, onde a criança pode treinar o movimento de pinça necessário para abotoar, amarrar, usar zíper etc. São materiais divertidos, que podem e devem ser deixados à disposição da criança, e com os quais o adulto pode brincar junto com ela pra mostrar como funcionam.

Além disso, todos os brinquedos que envolvem a coordenação motora fina ajudarão a desenvolver essas mesmas habilidades: blocos de montar, brinquedos de encaixe, massas para modelar (massinha, argila, geleca) e até mesmo materiais para desenho e pintura não apenas entretém e divertem a criança por longo tempo, mas também estimulam a criatividade a as habilidades motoras quês estão nascendo.

    • “Meu filho não aceita nada do que eu escolho pra ele, e tem ataques de birra quando contrariado.”

Quando nossos filhos são bebês não lhes perguntamos o que eles querem comer ou vestir. Os adultos escolhem as coisas e dão-nas prontas à criança, e geralmente ela aceita isso de bom grado. Mas, ao descobrir sua nova autonomia, a criança pode querer também fazer as suas escolhas. Talvez o seu filho chore e se recuse a vestir ou comer aquilo que você, adulto, está “mandando”. Mas, se ele sentir que tem opções de escolha balizadas pelo adulto, pode deixar a birra de lado e tornar-se surpreendentemente colaborativo. É possível encontrar um ponto de equilíbrio entre “faça isso porque eu mandei, manda quem pode, obedece quem tem juízo” e o “faça tudo o que você quiser, pois não há limites aqui”!

Ao longo do dia, permita que seu filho faça escolhas. Você pode fornecer algumas (não mais do que duas ou três) opções pré-selecionadas para a criança escolher: “Você prefere calçar a sandália vermelha ou a azul?”; “Você prefere vestir o casaco preto ou o amarelo?”; “Você quer comer macarrão ou arroz no almoço?”; “Você prefere levar pão ou biscoito na lancheira?”

Compartilhar o poder de escolha com o seu filho não fará dele um pequeno tirano, pelo contrário, o ensinará o quanto é importante tomar decisões (ainda que triviais) e que elas têm conseqüências. E a oportunidade de fazer diversas pequenas escolhas durante o dia faz com que a criança sinta-se mais respeitada e acolhida na maior parte do tempo, e assim aumentam as chances de que ela se torne muito mais colaborativa quando ela tiver que fazer algo onde NÃO há muita possibilidade de escolha, como tomar um remédio, escovar os dentes ou tomar banho.
Procure também organizar o ambiente de modo que essas escolhas se tornem acessíveis para a criança: Separe uma gaveta baixa na cozinha para os utensílios da criança (copos, talheres, etc). Destine uma prateleira baixa na geladeira, fruteira ou despensa, de modo que fique ao alcance da criança, e coloque lá algumas opções de lanches saudáveis que ela goste de comer. Arrume o guarda roupas dela colocando as roupas e calçados de uso diário sempre ao seu alcance nas gavetas e prateleiras mais baixas, e reserve as partes superiores para as roupas que serão usadas apenas em ocasiões especiais. São atitudes simples que tornam o ambiente mais acolhedor e estimulante para os pequenos, pois assim você poderá envolvê-los de modo prazeroso em tarefas rotineiras como vestir-se e alimentar-se.

    • “Meu filho não aceita rotinas e horários.”

A rotina é muito importante para as crianças pequenas, pois lhes dá o sentimento de segurança, ao fornecer a previsibilidade diária de uma seqüência de atos. É reconfortante para a criança saber a sequência em que as coisas ocorrem ao seu redor: “eu acordo e vou para a escola de manhã; ao final da aula minha mãe me busca; eu almoço em casa com a mamãe e ela vai para o trabalho, enquanto eu fico com a baba; à tarde eu brinco no meu quarto; depois eu tomo um banho e faço um lanche” e assim por diante. A repetição diária desses fatos emoldura a vida da criança, e com o tempo ela aprende a ordem dos acontecimentos. Sem a previsibilidade, a criança pode ficar ansiosa e agitada: “Onde eu vou ficar, o que eu vou fazer, quem vai cuidar de mim?”

A criança pequena ainda não tem a organização espaço temporal totalmente construída, e pode confundir os dias da semana, horários etc. Ás vazes, fazer um cartaz ilustrado pode ajudá-la bastante nesse sentido. Você pode fazer uma tabela numa cartolina, contendo os dias da semana e as atividades de cada um deles (tudo contendo sempre a palavra e um ilustração juntas, conforme no exemplo das caixas de brinquedos). Outra boa idéia é manter um calendário ao alcance e visível para a criança: nele você pode marcar datas ou eventos importantes, tais como uma viagem, passeio ou festa de aniversário. Além de acalmar a criança, ajudando-a contar o tempo em que a sua rotina acontece, tudo isso também é ótimo para o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático.
Quando o seu filho tema referência visual de um cartaz com a rotina e/ou de um calendário, fica muito mais fácil para ele compreender quando você precisa dizer a ele que: “Você não pode comer doces agora porque está na hora do jantar, mas pode comer uma sobremesa depois da janta.”; “Vamos desligar a televisão porque está na hora do banho”; “Hoje nós não vamos ao clube porque é segunda feira” etc. O pensamento das crianças pequenas é concreto, por tanto as referências visuais torna muito mais fácil a compreensão para elas.
Durante a fase do personalismo, coisas tão cotidianas como escovar os dentes ou tomar banho podem tornar-se grandes desafios para a criança, como já explicamos. A organização do ambiente doméstico, proporcionando acessibilidade para a criança, facilita a rotina diária. Por tanto, vale a pena organizar até mesmo o banheiro. Uma escadinha ou banco de plástico para alcançar o lavatório; um assento redutor pra sentar-se com segurança no vaso sanitário; alguns gibis disponíveis num cestinho para ler enquanto está no troninho; uma cantoneira de plástico com brinquedos para usar durante o banho. Coisas simples como essas podem poupar brigas intermináveis na hora do banho, de escovar os dentes ou de usar o vaso sanitário.

    •  “Meu filho espalha brinquedos e bagunça por toda a casa.”

Os ambientes de brincadeira da criança também podem e devem estar acessíveis a ela, e organizados de forma lógica, que a ajude a manter cada coisa em seu lugar. Se os brinquedos estão todos misturados em enormes cestos, caixas ou baús, na hora de brincar a criança tenderá a tirar todos eles e espalhá-los pelo chão, até finalmente encontrar o brinquedo que deseja usar. Se eles estão organizados de forma clara e acessível, a criança já sabe onde encontrar o que deseja, evitando a bagunça.

Também é importante frisar que a criança não precisa necessariamente de centenas de brinquedos à disposição de uma só vez. Organize rodízios entre os brinquedos, substituindo-os semanal ou quinzenalmente, e guarde em outro cômodo os brinquedos que não estão em uso naquele período.

Para guardar os brinquedos em uso no quarto da criança, você pode providenciar caixas pequenas, que ela consiga manusear sozinha. As caixas devem estar identificadas com um rótulo, indicado o brinquedo a ser guardado ali. Lembre-se que o rótulo sempre deverá conter alguma imagem que identifique o brinquedo, já que a criança ainda não sabe ler (e o fato de associar a imagem à palavra escrita até mesmo ajuda nessa futura aprendizagem). Destine uma caixa pra bonecos, outra para carrinhos, outra para panelinhas, outra para animais e assim por diante, separando os tipos de brinquedos. E deixe os de temáticas complementarem junto uns aos outros: bonecas e panelas podem estar juntas, assim como carrinhos e pistas de corrida, por exemplo.

Mantenha os brinquedos em prateleiras baixas, ao alcance da criança. Ter os brinquedos ao seu alcance não produz “mais bagunça”. Pelo contrário, pois o fato de estarem acessíveis para brincar também os torna acessíveis na hora de guardá-los! É claro que, nas primeiras dezenas (ou centenas) de vezes em que for fazer isso, a criança precisará da ajuda e supervisão de um adulto, mas com o tempo, perseverança e repetição desta atividade, a criança aprenderá a fazê-lo por ela mesma ou com um pouco de supervisão e incentivo.

Além disso, vale lembrar que as crianças precisam muito mais de companhia do que de objetos para brincar! Os seres humanos são naturalmente sociais, sempre procuram uns aos outros, pois somos programados para aprender na interação social. Por tanto é importante que VOCÊ esteja disponível para brincar junto como seu filho, por ao menos algumas horas diárias. Ao brincar junto com ele, você poderá conhecê-lo melhor, entrar no seu mundo de imaginação e fortalecer o vínculo entre vocês. E, de quebra, ainda aproveita para dar bons exemplos, para que ele aprenda onde se deve guardar cada coisa, e que, se ele não quer mais usar um brinquedo, deverá guardá-lo antes de pegar o próximo. Seu filho não nasceu sabendo essas habilidades, mas ele aprenderá à medida que você fizer isso diariamente junto com ele.

    •  “Meu filho chora e faz birra em locais públicos.”

Todo mundo já viu alguma criança pequena fazendo birra no parque de diversões, no shopping, no supermercado etc. E todo mundo tem medo de que o seu filho faça o mesmo, ou sentiu-se mortalmente constrangido caso ele já tenha feito. Quando uma criança dá uma birra em local público, todos olham apavalhados, e geralmente pensam duas coisas: “que mãe/pai é esse que não sabe controlar o seu filho” e/ou “ainda bem que não é com o meu filho”.

Não deveríamos nos surpreender tanto com essas birras, pois o simples fato de que todos já presenciamos alguma cena assim, deveria nos indicar que este comportamento não é alienígena, e sim bastante comum à imensa maioria das crianças. Isso por si só já seria de grande utilidade para acalmar aos pais, aflitos com os olhares julgadores que escrutinam o espetáculo. Quem nunca viu outra birra infantil antes, que atire a primeira pedra! Mas importa saber que podemos seguramente EVITAR a imensa maioria delas.
Não é mera coincidência que estas cenas se dêem em lugares movimentados (e geralmente com grande apelo ao consumo) como shoppings, supermercados e afins. Esse lugares são superestimulantes para as crianças, com ruído alto,luzes e cores fortes, etc, tudo ao extremo. Horas a fio andando pelos corredores lotados de mercadorias e tentações não apenas cansa, mas também atiça os pequenos. Por tanto, o primeiro passo seria simplesmente evitar esse tipo de “programa” com as crianças. Isso mesmo: EVITAR! Saia do shopping e vá para os parques, praças, praias e demais áreas verdes publicas. As crianças hoje em dia passam longas horas confinadas em espaços fechados (em casa ou na escola) e fazendo atividades sempre dirigidas pelos adultos (escola regular, ballet, judô, línguas, música e etc). Sobra-lhes pouco tempo para correr ao ar livre e fazer o que ELAS mesmas (e não os adultos) querem.
Se for absolutamente inevitável ir ao supermercado com a criança, ou se vocês forem ao shopping para uma atividade realmente prazerosa de lazer, como uma ida ao cinema, por exemplo, converse com a criança antes de sair de casa, explicando o que você farão lá: “Nós vamos ao supermercado hoje, você pode escolher um chocolate para por no carrinho de compras. Mas só vamos comprar UM chocolate, não mais do que isso”. ou “Nós vamos ao shopping ver o filme X, mas não vamos à loja de brinquedos fazer compras”. Assim, se a criança pedir para comprar todos os chocolates e brinquedos à vista, lembre-a sempre do combinado que você fizeram em casa, antes de sair, e até mesmo reforçaram no trajeto até lá. Parece tolice, mas o simples fato de já saber de antemão o que irá fazer e o que a espera naquele local já costuma diminuir muito pedidos repetitivos e chorosos.
Sempre que você precisar sair de casa por um período de longas horas com a criança, certifique-se de preparar uma bolsa que lhe ajude a lidar com as prováveis emergências mais comuns: leve uma muda de roupas, uma garrafinha com água, um lanchinho, e alguns brinquedos favoritos (você pode e até mesmo deve envolver a criança na escolha do lanche e dos brinquedos que irão levar). A maior parte das birras fora de casa se dão porque a criança já está cansada, com sede, fome, entediada… ou tudo isso junto. Se você tiver à mão a solução para esses problemas, pode agir preventivamente assim que perceber que a criança está dando sinais que precisa descansar, brincar, tomar uma água ou fazer um lanche.
Se mesmo assim a temida birra ocorrer, respire fundo, lembre-se de que a criança não está sendo mal educada; ela está apenas agindo como todas as demais crianças da idade dela. Abaixe-se para falar com o seu filho, olhe nos olhos dele, comunique-se com frases curtas e diretas: “Eu sei que você quer comprar mais chocolates, você quer mais chocolates e está chateado! Mas nós já compramos o chocolate que havíamos combinado, e agora vamos para casa comê-lo!” (O livro do Dr Harvey Karp, “A criança mais feliz do pedaço”, tem excelentes dicas para comunicação eficaz e positiva com as crianças, vale a pena a leitura!) Geralmente, ao ouvir o adulto e perceber que ele reconhece a sua frustração infantil já ajuda para que a criança comece a se acalmar.
O contato físico (além da voz e do olhar) também ajudam a cessar a birra, por tanto, tente abraçar seu filho até que ele recobre a calma. Acolher a queixa da criança e dar-lhe colo é muito mais eficaz do que simplesmente tentar ignorá-la, ameaçá-la ou tentar fazer longos discursos (que ela não irá ouvir naquele momento de crise). Depois que a birra parar, você poderá conversar sobre o ocorrido com a criança.
E finalmente… seja bem vindo aos MARAVILHOSOS dois anos!

Dizem que o melhor sempre fica pro final. Por isso deixamos para a conclusão a parte maravilhosa do comportamento das crianças pequenas. O estágio do personalismo, descrito por Wallon, não é composto apenas pelas crises de oposição da criança. Além da oposição, a imitação também é uma ferramenta usada pelos pequenos na construção da personalidade, dando vazão à chamada “Idade da Graça”.

A criança observa as pessoas ao seu redor, especialmente aqueles que têm maior vínculo afetivo com ela (principalmente os pais) e os imita, nas brincadeiras de faz de conta, incorporando essas vivências à sua personalidade em construção. Através das brincadeiras da criança, os pais poderão ver a si mesmos, e sobretudo descobrir a maneira como os filhos os vêem.

Esta é a época de se deliciar vendo o seu filho se vestindo com as roupas e acessórios dos pais, com fantasias dos seus personagens favoritos, brincado de todos os tipos de profissões, contando e inventando mil histórias. Observar essas brincadeiras do seu filho e entrar no jogo imaginário dele também o ajudará a conhecê-lo e, por tanto, a ensiná-lo a distinguir o certo do errado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARP, H. A criança mais feliz do pedaço: como acabar com as birras e educar uma criança para que se torne paciente, obediente e cooperativa. Osasco, SP: Pandorga.
GALVÃO, I. Henry Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil.Petrópolis: Vozes, 1995.
GRANDINI, P. J. Wallon e a psicogênese da pessoa na educação brasileira. Em GRATIOT-AlFANDPPERY, H. Herny Wallon (Coleção Educadores MEC). Recife: Fundação Joaquim Nabuco/ Editora Masangana, 2010.
SITES CONSULTADOS
http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/henri-wallon-307886.shtml
http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/conceito-afetividade-henri-wallon-645917.shtml
http://www.grugratulinofreitas.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/21/970/26/arquivos/File/materialdidatico/formacaodocentes/tpei/2_serie/desenvolvimento_infantil.pdf
VÍDEO
http://www.youtube.com/watch?v=eTIZXQocEzk

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