E se seu filho passar do limite?

1888719_607923745958838_767340572_n“Eu não entendo por que você diz que não se deve punir transgressões. Tenho a impressão de que quanto maior a transgressão, maior a necessidade da criança; mas e se eles realmente ultrapassarem o limite? Ontem, o meu filho de 3 anos de idade jogou um livro porque ele ficou furioso. Ele atingiu o olho do meu marido e cortou sua pele – poxa! Tirei-o da sala, disse-lhe que aquilo nunca seria permitido e coloquei-o no cantinho do pensamento. Sim? Não?”

– Puxa vida, verdade?! Que bom que o seu marido está bem. A maioria das crianças de 3 anos tenta atirar coisas. Mas eu tenho certeza de que o seu filho ficou ainda mais chateado do que você e o seu marido juntos.

O problema de tirar a criança e deixá-la pensando sozinha, pra começar, é que isso não ajuda com os sentimentos que a levaram a atirar o livro. Sob agressão você quase sempre vai encontrar medo. Cada criança pequena tem medos que não podemos sequer imaginar. Uma criança de 3 anos que está às voltas com o medo pode muito bem ficar furiosa com alguma coisa, e pode acabar jogando o que estiver à mão. Isso é um comportamento normal, embora, naturalmente, possa ser perigoso, como o seu filho acabou de perceber, e é claro que devemos dizer-lhe que jogar coisas nas pessoas não é permitido, nunca, assim como você fez. Mas o seu filho sabe a partir de agora (e, certamente, depois de ferir o pai) que atirar coisas nas pessoas machuca. O que ele precisa é da ajuda de vocês para administrar os sentimentos que o levaram a atirar o livro, ainda que ele já saiba que o comportamento está fora dos limites e dói.

Eu estou tentando imaginar o que aconteceu no íntimo de seu filho, o que ele estava pensando naquele momento. Se eu fosse ele, eu teria sentido muito medo do meu pai, preocupado que eu fosse uma pessoa terrível, capaz de danos horríveis, incapaz de me controlar, tão ruim que eu teria que ser isolada e não poderia nem mesmo fazer as pazes com ele. Eu poderia me sentir com tanto poder por ter feito meu pai invencível sangrar, o que seria uma ideia terrível. A vergonha e o medo seriam tanto que eu poderia ignorá-los (como todos nós fazemos com sentimentos desconfortáveis), paralisando e olhando como se eu não me importasse. Ou ficar com raiva. Eu poderia muito bem sentar lá justificando o que eu tinha feito, dizendo a mim mesmo por que eu estava certo.

Isso é o que qualquer criança normal faz no castigo. Eles não se sentam lá determinados a se tornarem pessoas melhores, e mesmo que o fizessem, o resultado seria transbordar os sentimentos que os levaram a atirar as coisas a princípio. Mas agora há uma dose extra de vergonha e medo. Numa próxima vez, ele poderia sentir-se ainda mais sobrecarregado por esses sentimentos. OU ele pode controlá-los em relação a seu pai, mas pode começar a agir de outras maneiras, como bater no irmão, fazer xixi pela casa ou ter pesadelos.

Se, em vez de deixá-lo sozinho no cantinho do pensamento, você imediatamente se voltar para a pessoa que está machucada, passa a mensagem clara ao seu filho que essa dor é muito importante. Você até mesmo pode deixá-lo ajudar. Consequentemente, o foco em seu pai poderia ser suficiente para deslocá-lo para fora de seus sentimentos intensos. “Oh, meu Deus! Seu pai está machucado. Querido, vá buscar um paninho e vamos ajudar o seu pai.” Você está convidando-o, de modo que ele se torna parte da solução. Ele pode ter feito uma coisa monstruosa, mas você estará comunicando a ele que ele não é um monstro.

Sua conexão é a sua motivação para enfrentar algo que ele tenha feito que ultrapassou os limites. Afinal de contas, se você retirar o seu amor, por que ele deveria fazer o trabalho duro de assumir a responsabilidade? (E sim, eu sei que você ainda o ama apesar de estar furiosa, mas ele não.) Quando você se sente na defensiva, não é mais difícil de admitir seus erros? Seu filho não é diferente.

Você está perdoando-o muito facilmente? Não. Ele não pode, ao mesmo tempo, se sentir uma pessoa má e agir como uma pessoa boa. Ele agiu de uma forma que estava claramente fora dos laços de amor das relações familiares. Ao invés de ignorá-lo, o que fortalece sua posição de garoto mau, você sai para buscá-lo e o traz de volta para os braços da família. Sem essa reconexão, você não pode alcançá-lo, e qualquer “disciplina” só irá ensinar-lhe que ele é ruim.

Mas você pode não apenas ignorar o que ele fez. Você pode ajudá-lo a refletir sobre o que aconteceu para que não volte a acontecer novamente. Uma vez que seu marido estiver bem, você respira profundamente para evitar agir com raiva. Você se lembra que está ajudando o seu filho com os sentimentos dele, e não punindo-o, porque é isto que irá realmente prevenir que tal atitude se repita. E aproxima o seu filho de você, muito séria e gentilmente, olha nos olhos dele e diz: “Livros não são para jogar. Papai realmente se feriu, não foi?” Seu filho provavelmente vai explodir em lágrimas, o que libera todo o turbilhão que está se passando dentro dele. Você diz “Você estava nervoso, então você jogou o livro, mas aquilo machucou o papai de verdade. Foi assustador. Papai vai ficar bem, mas é por isso que não jogamos coisas nas pessoas.” Você deixa que ele chore em seus braços.

Depois que ele estiver calmo, você pergunta o que ele poderia fazer para o papai se sentir melhor. Você dá a ele uma chance de se redimir, de se tornar uma boa pessoa em sua própria consciência, o tipo de pessoa que é capaz de controlar a sua ira para não fazer mal a outras pessoas. Essa transformação seria improvável se ele fosse deixado no cantinho do pensamento, porque ele iria sentar lá isolado como um criminoso, o que endureceria seu coração. Mas ele tendo estado no meio da emergência, como um dos ajudantes, isto abre o seu coração. Ele sente a sua bondade, e também a sua firmeza. Ele se sente seguro para mostrar-lhe todo o medo por trás da sua raiva. Uma vez que ele expresse todos esses sentimentos, eles evaporam, e param de dirigir o seu comportamento.

O que o seu filho aprendeu?

Atirar coisas pode machucar seriamente alguém.
Eu QUERO me controlar melhor da próxima vez para que isso nunca mais volte a acontecer.
Não devo agir sem antes controlar meus sentimentos.
Mamãe e papai entendem meus sentimentos intensos e podem me ajudar com eles. Quando eu confio neles para me ajudar, eu me sinto muito melhor.
Eu sou capaz de ferir alguém seriamente, e eu nunca quero fazer isso.
Eu sou capaz de fazer as coisas melhor, de reparar equívocos, de fazer as coisas direito quando eu cometo um erro.

Agir assim é muito mais eficiente do que dizer que a criança passou do limite e castigá-la, pois dessa forma ele não se sente desconectado; além do amor de seus pais, ele aprendeu que é amado incondicionalmente. Seus pais não desistem dele. Todos sabem que no núcleo familiar, ele é bom, e quer “fazer direito”, e nunca deixaram de acreditar nele. Esta certeza vai reforçar a sua crença em sua própria bondade, e ajudá-lo a crescer em sua confiança. Porque o milagre de cura do amor incondicional é que não existem limites. Só existe amor.”

Dra. Laura Markham
Aha! Parenting.com
Fonte: http://www.ahaparenting.com/_blog/Parenting_Blog/post/Why_not_punish_when_Your_Child_Crosses_the_Line/

Tradução: Andréia Stankiewicz
Revisão: Andréa Mascarenhas e Jan Andrade

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