Três razões para NÃO humilhar seus filhos na internet

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Parece haver uma tendência crescente de casos de pais que tentam ensinar respeito aos seus filhos praticando ‘disciplina rígida’.

Uma mãe obrigou sua filha vender seu iPod na internet, enquanto segurava um cartaz que listava seus pecados como cyberbully (http://shine.yahoo.com/parenting/mom-cyber-shames-daughter-online-bullying-39-bully-192100101.html).

Tem o caso de uma outra mãe em Indianápolis que obrigou seu filho a segurar um cartaz escrito que ele era um ladrão (http://shine.yahoo.com/parenting/mom-punishes-kids-for-stealing-by-shaming-them-in-public–does-it-work–190517450.htm).

Tem também o caso desses pais da Flórida que obrigaram sua filha a segurar um cartaz em público que dizia o quão desrespeitosa ela é (http://shine.yahoo.com/parenting/parents-force-girl-to-hold-sign-as-punishment-for-being-disrespectful–tough-love-or-too-much–184517447.html )

É isso mesmo, esse pessoal está praticando humilhação em público e usando a internet para tal, para tentar ‘educar’ seus filhos.

E deixa-me falar uma coisa sobre essa ‘prática’: isso é VERGONHOSO!

Na foto acima, uma menina que, no futuro, precisará de um analista que não poderá fazer nada, só sentar e chorar.

Bem, eu imagino o que você está pensando nesse exato momento: “Mas você nem os conhece!” ou talvez “Você já conversou com um psicólogo infantil?” ou “Droga, achei que esse texto seria sobre uma lista de casos engraçados”…

Mas francamente, estou enojado. Essa ‘moda’ não é nada mais do que lamentável! Como uma pessoa imersa no mundo de criação de filhos e, na internet por mais de uma década, eu sei que ambas não devem andar de mãos dadas (criação de filhos e internet). Veja, abaixo, três razões para isso…

#1. Educação é muito complicada para a internet

Você provavelmente já ouviu que educar um filho é o trabalho mais difícil que existe. Isso é quase verdade. Educar bem é o mais difícil. Você tem que estar sempre conectado com seu filho e com suas necessidades. Mas, educar não é difícil, é sim complicado. Há tantas decisões a ser tomar, que é muito difícil não errar nenhuma vez. Mesmo com boas intenções, erraremos na educação de vez em quando. Você pode ser duro com seu filho por alguma atitude, quando na verdade tudo que ele precisava naquele momento era um pouco de empatia e compaixão.

A boa notícia é que isso não é fatal. Uma decisão isolada tipicamente não te qualifica com pai ou mãe bom ou mau, porque tudo que você faz está dentro de um contexto de uma vida toda com seu filho…

É muito difícil então para alguém julgar suas decisões sem ver todos os momentos de sua vida familiar. As pessoas deveriam saber que não dá para julgar os pais por um momento isolado de um contexto muito maior.

E quer saber de uma coisa? O mesmo se aplica com as crianças. Claro, pode ser que você tenha pego sua filha em flagra fazendo cyberbullying. Talvez o que ela fez tenha sido horrível. Talvez naquele momento você viu algo tão repulsivo que achou que fazia sentido fazer absolutamente tudo ao seu alcance para extinguir aquele comportamento. Então, no calor do momento, você tirou uma foto do pecado dela, isolado do resto, e colocou para exibição pública, numa rede social. Ou então você obrigou seu filho a segurar um cartaz humilhante em publico, quando você SABIA que a internet se aproveitaria e criaria uma história em cima daquela situação.

Mas, aquela situação específica revela aos expectadores a história toda? E mais, você está realmente contando que o mundo virtual entenderá as particularidades do pecado do seu filho?

Olha, a internet é muito boa para lolcats (sites de humor) e pornografia.

Você realmente espera que a internet faça as próximas perguntas, perguntas relevantes, como, por exemplo, se seu filho está praticando bullying porque sofre bullying em casa? (ou seja, se está agindo pelo próprio exemplo).

Se a criança está roubando porque ela está tentando cobrir os buracos emocionais de falta de amor em sua casa? Se a criança desrespeitadora tem pais dignos de respeito?

NÃO! A internet, tipicamente, não faz as perguntas mais profundas, pertinentes, que investiguem as causas da situação.

E então, na verdade, pais que tentam convencer a internet de que estão educando bem ao vender seus filhos como pecadores, estão provavelmente contando com isso.

#2. É impossível proteger sua reputação como pai/mãe ao violar a confiança que seu filho tem em você

Ninguém gosta quando o filho age inapropriadamente em público. Dá vergonha, sim, se você está num restaurante e seu filho grita para o garçom “Me dá um canudinho agora!”, em vez de pedir com educação. Você se sente mal porque o garçom foi maltratado. Mas você também se sente um idiota, pois seu filho te fez passar vergonha em público. Estão pensando que você é um pai que não educa direito. Você sabe o que aquele garçom está pensando, ele está se questionando se você não ensinou bons modos ao seu filho, ou se é assim que você fala com outras pessoas.

E então, o que você faz? Bem, alguns irão somente dar um sorrisinho e dizer “Crianças…,” e deixar para lá. Alguns vão insistir para que o filho peça com educação, e outros irão reprimir o filho severamente, até que cada pessoa naquele restaurante, que possivelmente tenha ouvido aquela cena também, ouça a maneira com que o pai lidou com isso.

Essa última atitude não tem nada a ver com educar o filho. Tem tudo a ver, sim, em se exibir. Mostrar que ‘educa bem’. “Olhe para mim, olhe, olhe! Veja como estou cho-ca-do com meu filho. Veja como eu desaprovo sua atitude! Olhe, estou tão surpreso quanto você, e eu não vou admitir isso de jeito nenhum.”

É uma vergonha! Esse é o tipo de pai que valoriza mais a aprovação de estranhos do que a confiança do filho.

Digital Vision/Digital Vision/Getty Images “Então, esses estranhos são mais importantes para mim do que meu filho? Hmmmm. Estou pensando.”

Essas humilhações públicas nada mais são do que tentativas de pais que estão com vergonha de lavar suas mãos em relação aos seus filhos.

Educar é tarefa difícil. Seu filho fará coisas boas e coisas ruins, das quais você não merece absolutamente nenhum crédito ou culpa. E, de vez em quando, haverá sim uma ligação direta entre a educação que você deu e o comportamento de seu filho. De qualquer modo, as pessoas são rudes, e muito frequentemente você será clamado como responsável por cada coisinha que seu filho fizer. Na real, o que você tem que fazer é não se importar. Não é seu trabalho se importar sobre o que os outros pensam. Estamos falando do seu filho. SEU FILHO, que não pediu para nascer. Uma criança que está vivendo em sua casa por sua causa. Se você deixar que seu filho pense que a opinião do garçom ou, pior ainda, que os céus perdoem, a internet toda seja mais importante para você do que ele, do que a confiança dele, então o que você acha que vai acontecer?

Que criança se preocupará então em não decepcionar um pai ou mãe que tem tão pouco respeito por ela, quando comparado com sua própria reputação?

#3. O modo como criamos nossos filhos não deve ser motivo para virarmos a celebridade do momento

Vamos começar com a pergunta óbvia: Por que os pais estão agindo assim?

Por que eles estão levando assuntos muito íntimos do seio familiar sobre o comportamento de seus filhos, e sua reação a tais comportamentos, para o público? Por que estão incluindo outras pessoas (e muitas pessoas) nesse assunto familiar? Se você lhes perguntar, a resposta será algo como: “Ah, para eles sentirem na pele o que fizeram”, ou então: “Porque eles merecem.”

Mas, é muito óbvio que não é só isso, que há mais coisa por trás.

Isso é muito evidente, particularmente, no caso da mãe que humilhou publicamente sua filha por ela ter praticado cyberbullying.

Veja,  supondo que esses pais descubram que seu filho bateu num colega, eles teriam coragem de bater da mesma forma no seu filho no meio da praça? Provavelmente não, mesmo que, tecnicamente, seu filho ‘mereça’ isso, nessa mentalidade de olho por olho, dente por dente, que eles usam para justificar a humilhação pública na internet.

A questão mais importante aqui, entretanto, não é se o castigo é adequado ao crime. É, na verdade, a motivação para envolver outras pessoas no seu modo de educação. Qual será a motivação, já que esses não são casos onde os pais estão PEDINDO conselhos e críticas de pessoas fora da família?

Não, não são pedidos de ajuda. É uma necessidade de audiência. A partir do momento que você coloca sua decisão como pai/mãe pública, você está agindo igual a adolescente que postou vídeos dela dançando músicas da Miley Cyrus, no youtube. A motivação é MUITO SIMPLES – “Veja-me, aprove-me”.

Eu tenho que acreditar que parte dessa moda vem da fascinação que nossa sociedade tem na fama falsa de reality shows e da internet. Todos já ouvimos a teoria de Andy Warhol (artista Americano), que no futuro todo mundo seria famoso por 15 minutos, mas nós não percebemos que a maior parte das celebridades só consegue nossa atenção por 14.

Os pais levaram a educação que dão aos seus filhos ao público, do mesmo modo que as mulheres atualizam suas fotos no facebook, após um corte novo de cabelo, ou esses escritores de internet chatos que ficam postando selfies.

Só que educação dos filhos NÃO é reality show. Mesmo que as pessoas fossem estúpidas o suficiente para assistir um show chamado ‘E então você acha que sabe educar?’ (So You Think You Can Parent, em referência a um show de dança famoso ‘So you think you can dance’), como provado pelas pessoas que aplaudem as histórias desses pais na mídia social, esse show simplesmente não deveria existir. Não somente porque castigar publicamente seu filho não deve ser o caminho para a fama, mas porque, como discutirei abaixo, eu acredito que esses pais têm motivos muito mais obscuros por trás dessas atitudes.

Fonte: http://www.cracked.com/blog/3-reasons-you-shouldnt-shame-your-kids-internet/

Tradução: Andréia C. K. Mortensen

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