A onda “mais” e “menas” mãe e o marketing da culpa

Quando você começa a ler artigos cientifícos que comprovam algo que, no fundo, parece tão descomplicado e óbvio, é possível até ver a lâmpada acesa pairando sobre a cabeça. E o que acontece em seguida é que você tem sede de mais e mais informações, você quer que outras pessoas também saibam, porque além de óbvio é ao mesmo tempo importante. E então você tem uma grande surpresa: nem todo mundo vai ficar feliz quando você mostrar a lâmpada acesa, linda e brilhante sobre a sua cabeça, e, às vezes, você tenta, mas não consegue escondê-la e será estigmatizado por isso. Vou dar um exemplo prático. Descobri o “BLW” Baby Lead Weaning, um livro que aborda o tema introdução alimentar para bebês, que explica porque a papinha é desnecessária. Não é um “método”, mas explica por que um bebê não precisa de “papinhas”, com uma linguagem simples, explica todo o funcionamento do processo digestivo em bebês. Daí você lê, a luz acende, você pensa “por que ninguém conhece isso?“ “Por que todas as mães que conheço estão na cozinha horas para preparar e congelar uma quantidade industrial de potes de papinhas quando os bebês já podem começar a provar diferentes texturas e desenvolver a mastigação?”

 

Daí você se depara com um mundo de informação que não queria ter: em primeiro lugar, a papinha caseira é o de menos. A indústria alimentícia não quer que você pare na cozinha e prepare o almoço para a família inteira da mesma forma, com menos condimentos e com menos produtos industrializados.  A indústria de produtos para bebê abarcou um mercado gigante, que gera bilhões de lucro por ano, os alimentos para bebê imagino que estejam no topo desse mercado e logo depois vem as publicações sobre parentagem. A infância virou uma fatia grande e lucrativa do mercado e seu consumidor será fiel até a idade adulta. Então, antes mesmo que você possa completar a frase “Não dei papinha, descobri que é desnecessário…”, vai ouvir uma resposta apressada e defensiva: “Eu dei e não sinto culpa por isso, não sou menas mãe” Então vem a desagradável surpresa:  você está contra um sistema muito bem definido e amarrado por questões culturais e comerciais. É como se alguém dissesse: “Olha, eu vi um estudo que diz que fumar pode causar câncer“, e a outra pessoa respondesse: “Eu fumo e não sinto culpa por isso e não sou menas pessoa.” Consegue imaginar a cara de “Hein?“ do ex fumante? Eu consigo, é a mesma cara que eu faço quando ouço esse tipo de associação influenciada pelo interesse do sistema opressor e de quem promove a alienação. E essa alienação não está apenas ligada ao consumo, como também ao machismo.

 

A tal da “culpa materna“ que vem sendo “combatida“, não passa de uma estratégia de marketing sujo, que coloca lenha nessa “guerra de mães” que nunca existiu. Já imaginou alguém entrando em um fórum de internet para contestar estudos referentes ao consumo de álcool ou tabaco? Dizendo não acreditar em tais estudos e que não é “menos pessoa“ por isso? Imaginou algum homem se defendendo dizendo: “Eu não sou menos pai” porque algum estudo aponta que o vínculo paterno é de extrema importância na formação da personalidade das crianças? Não. Isso não existe. Porque a sociedade alimenta a guerra entre as mulheres, porque se essa guerra não existir elas podem começar a se unir para exigir seus direitos como mães, aliado aos direitos da criança. Elas seriam muito subversivas, como já apontou o pediatra Carlos Gonzáles. Elas poderiam reivindicar, por exemplo, o direito de amamentar seu filho exclusivamente por 6 meses entre outras políticas trabalhistas que dão condições dessa criança ser amamentada por mais tempo mesmo depois da volta ao trabalho. Quanto nossa sociedade precisaria mudar para que isso acontecesse? E o mais importante, quanto os homens teriam de se envolver nesse processo? É muito mais fácil a sociedade continuar sendo mantida da mesma forma, que uma boa parte das mulheres continue acreditando que as mulheres que exigem licença maternidade estão, na verdade, sendo arrogantes e querendo ser “mais mães” do que elas, do que se comece a tomar maior consciência de como estamos nos tratando umas às outras e deixando de lado o fato de que a primeira infância merece muito mais atenção do que temos realmente dado, nas questões políticas e educacionais. E quem lucra com isso são as grandes indústrias e a relação delas com todas as formas de mídia.

 

A verdade é que mães que lutam contra o sistema, contra a alienação pelo consumo e propaganda, que se sentem compelidas pela culpa para mudar, elas não estão lutando contra outras mães, no máximo elas estão lutando a favor da infância. A culpa não deve ser mesmo regada e cultivada, mas fingir que ela não existe não é o mesmo que resolver um conflito. Assim como com todos os sentimentos e experiências negativas, a culpa deve ser uma ponte para a autocrítica e para o aprendizado. É óbvio que ninguém, nem a criança, ganha alguma coisa com a autocomiseração, mas autocrítica, a análise racional daquilo que o outro nos apresenta/informa é o que nos leva adiante de uma forma positiva e enriquecedora.

 

Achar meios melhores e baseados em evidências científicas de cuidar dos filhos não é uma guerra contra outras mães, nem nunca será! Por mais que interesses escusos tentem espalhar isso por aí, pegue a sua capacidade de analisar de forma crítica, coloque a postura defensiva de lado e tome suas decisões pensando de forma objetiva e racional, não alimente interesses escusos fazendo chacota daquilo que você não conhece, informe-se, tenho certeza de que depois que a lâmpada se acende, vemos o mundo da maternagem sob uma outra perspectiva. Toda vez que você sentir o ímpeto de dizer “mais/menos mãe” lembre-se do cigarro, lembre-se do ridículo que é contestar pesquisas científicas com base em uma rivalidade que não existe e, por último, lembre-se de pesar a quem interessa tanta “polêmica”.

Jan Andrade

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2 respostas para A onda “mais” e “menas” mãe e o marketing da culpa

  1. Day disse:

    Ok, alguns pontos.
    1. Desde quando papinha caseira tem alguma coisa a ver com a indústria alimentícia?
    2. Desde quando alguém leva horas para fazer uma papinha? É só tacar tudo na panela e pronto.
    3. Mais importante. Esses estudos não são definitivos. Não é branco e preto como fumar ou não. Digamos que seja como beber ou não. Um copo de álcool por dia é saudável. Mas enfim. Super legal descobrir a roda e querer divulgar. Lindo. Mas tem gente usando outros tipos de rodas, que também funcionam. Uma coisa é divulgar, outra coisa é acreditar que a sua forma é a única correta e querer convencer todo mundo à força. Eu sou mãe, pesquiso, me informo, mas tenho a humildade de saber que existem infinitas formas de ser mãe, e que várias coisas que eu faço, com a melhor das intenções, podem não ser as melhores do mundo. Eu sei que errei, erro, e vou errar e muito. E que isso faz parte. Tenho várias crenças sobre educação e alimentação infantil, mas não julgo ninguém que pensa diferente de mim. Esse baby lead weaning é americano, onde eles comem papinhas horrorosas, industrializadas, de cereais sem valor nutritivo nenhum. E daí eu concordo que é melhor. Daí a “evidência científica”. Caso muito diferente de sopinhas e papinhas brasileiras.

    • janandr disse:

      A questao central do texto nem de longe é sobre papinhas, é só um exemplo de algo interessante e simples de ser compreendido (fica a critério de quem lê o texto buscar se aprofundar no assunto, caso se interesse) que é criticado sem que a pessoa se dê ao trabalho de saber o que é, ou se defende (sem saber do que se trata) mesmo quando o assunto é simplesmente a resposta de uma pergunta: nesse caso, perguntas como “você tem receitas de papinha”? E a resposta é “Eu não precisei fazer papinhas…” O texto fala em facilitar, reduzir gastos e em informações com base científica, isso não quer dizer “melhor” “Superior” ou qualquer interpretação nessa direção. Obrigada por deixar um comentário. Abraço.

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