“Eu grito com os meus filhos porque…”

Fonte: http://evolutionaryparenting.com/yelling-part-i/ehttp://evolutionaryparenting.com/yelling-part-ii/

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Por: Tracy G. Cassels

Tradução: Daiana Falcão e Jan Andrade e revisão de Andréia C. K.Mortensen

“Eu grito com os meus filhos porque…

 … eles não me ouvem! 

 …eu estou frustrada!  

 …eles estão fazendo uma bagunça! 

 …estamos com pressa! 

 … eles estão se colocando em perigo! 

 …eu preciso resolver isso logo!”

E por aí vai. Nós que gritamos com nossos filhos tivemos de admitir que fazemos com várias justificativas. Podemos até não gostar do que fizemos,  mas fizemos e tivemos um motivo.

Eu argumentaria que a razão mais comum é geralmente uma mistura de crianças que não ouvem seus pais e a  frustração que isso os causa. Mas, acho que isso ignora a principal razão pela qual nós gritamos e pela qual somos os únicos que podem mudar esse comportamento.

Eu grito com os meus filhos porque perdi o controle.

Sim, eu acredito firmemente que é simples assim. Se perdemos o  controle de nossas emoções ou sobre o comportamento dos nossos filhos, a questão é que perdemos o controle.

Mas o tipo de controle que perdemos diz mais respeito sobre as nossas responsabilidades do que qualquer outra coisa, e eu vejo três tipos de perda  de controle que temos de enfrentar.

Perda #1: Eu perdi o controle sobre o comportamento dos meus filhos

Infelizmente, esse é um dos tipos mais comuns. Os pais gritam mesmo e esse hábito (sem raiva) é para conseguir que seus filhos sejam obedientes. De alguma maneira, estabelecemos que nós devemos ter o comportamento dos nossos filhos sob controle mas, não estou inteiramente certa se isso ocorre porque queremos ser bons pais, ou devido ao fato de não querermos parecer insanos, ou ainda, para sermos vistos como competentes. Até mesmo em famílias pacíficas se vêem pais que querem controlar o comportamento dos filhos. Eles talvez não gritem imediatamente para obter o “sucesso” (a obediência), talvez negociem ou guiem gentilmente, mas eles tem como objetivo o controle.

Eu sei, eu também sou assim de vez em quando. Têm dias que quero que a minha filha se encaixe em minha agenda e faça as coisas que eu gostaria que ela fizesse, e nesses dias eu talvez faça essas coisas. O problema é que o nosso senso de controle é uma completa ilusão. Nós podemos tentar controlar os nossos filhos. Nós podemos deixá-los com medo, podemos negociar, podemos até mesmo suborná-los, mas, ao fim do dia, nosso controle é apenas algo que eles decidem tolerar (por boas ou más razões, dependendo de como nós tentamos ganhar a obediência deles).

Em culturas tradicionais, onde não existe perigo imediato, os pais não tentam com tanta frequência interferir no que seus filhos estão aprendendo e em como eles estão se comportando [1]. As crianças fazem o que elas fazem, e as vezes escutam seus pais e em outras não. E com o tempo e consequências naturais, eles aprendem que é mais vantajoso escutar seus pais (ou não, conforme o caso).

Obviamente, não vivemos em uma sociedade em que as nossas crianças possam fazer o que querem e então, em parte, somos responsáveis pelo comportamento dos nossos filhos. E isso nos coloca em uma posição bastante desconfortável. Nós somos responsáveis por eles e devemos também nos esforçar para ajudá-los a encontrar a sua própria autonomia, com todas as implicações que esse processo envolve.

Talvez o efeito imediato de: “O que as pessoas vão pensar” pesa mais que nosso planejamento a longo prazo para os nossos filhos. E então somos surpreendidos quando perdemos esse precioso controle.

Onde estamos errando? Não, não estou defendendo que você deixe seus filhos fazer o que eles desejam.

Mas, acredito que estamos nos esforçando demais para obter controle e que precisamos aprender a relaxar um pouco, de modo que permita que a criança seja autônoma para crescer enquanto ainda mantém alguns limites.

A verdade é que gosto de dizer, “Escolha as suas batalhas”. O que isso significa? Significa que você deve renunciar ao controle sobre algumas áreas da vida de seu filho. 

Você tem que escolher aquelas que são realmente importantes para você e sua família e deixar o resto para que o seu filho decida. Por exemplo, eu decidi que a questão das roupas é uma área que eu não quero lutar. Minha filha pode vestir o que ela quiser no lugar que ela quiser… Sim, ela apareceu no meu laboratório sem calcinha. Alguns ficariam horrorizados com isso, mas essa não é uma área que eu sentia que tinha o direito de controlar. TV, no entanto, é. Tivemos batalhas quando eu insisti que estava na hora de desligar ou que nem mesmo seria ligada. É minha responsabilidade como sua mãe ter certeza de que ela não está sentada em frente à TV o dia todo sem fazer nada além de assistir. Isso é importante para mim. Então, eu escolho!

Como que escolher as suas batalhas ajuda? Para começar, significa que existe menos chance de você perder a razão e gritar. Quando se tem menos coisas que “precisa” controlar, você pode ser um pouco mais paciente com as crianças, a medida que não se está constantemente sentindo-se oprimida e uma batalha sendo travada a cada decisão ou pedido.

Mas talvez, mais importante, é que você pode aumentar as chances que seu filho seja responsável pelas próprias coisas que pede.

Pesquisas mostram repetidamente que pais que ouvem seus filhos e permitem-lhe que liderem às vezes, tem filhos que são mais propensos a cooperar/obedecer quando são pedidos para fazerem algo (para uma revisão da literatura veja ref. [2]). Então, se você acha que pode, faça a si mesmo um favor, passe algum tempo tentando descobrir o que você realmente precisa que seus filhos façam e deixei-os controlar o restante. Você provavelmente estará fazendo um favor às duas partes!

Perda #2. Perdi o controle sobre minhas emoções.

Isso é totalmente interligado com a perda de controle do comportamento de uma criança, mas pode acontecer também por conta própria. Sabemos que somos mais frustrados quando cansados ou estressados, quando as crianças estão prestando atenção, ou geralmente quando tivemos um dia ruim. Todas essas coisas contribuem para uma diminuição da habilidade de lidar com situações normais de estresse no dia a dia, especialmente com uma criança. Então desmoronamos. Achamos que somos capazes de identificar a diferença entre quando gritamos porque estamos tentando ter controle sobre o comportamento de uma criança e quando gritamos porque perdemos controle do nosso estado emocional.

O problema em gritar no que se refere a perda do controle emocional é gritar de raiva ou frustração, que já foi relacionado ao aumento de risco de abuso infantil [3], agressão contra crianças [4][5][6], déficit na regulação do emocional da criança[4], e déficit de respostas empáticas[7]. Este é o tipo de grito que é associado com “educação severa“ a qual se vê muitos resultados negativos. E é o tipo que devemos nos preocupar mais.

Há tantas variáveis em jogo, todavia, que é praticamente impossível sugerir de forma ampla o que as pessoas podem fazer. Entretanto, há algumas coisas que podem ajudar:

• Se você sentir que está ficando nervoso e quase gritando de raiva, saia de cena, dê um tempo. Muitas vezes, apenas alguns momentos sozinho pode nos ajudar a recuperar a perspectiva da situação. Quer você respire fundo algumas vezes, ou apenas tente ter uma perspectiva diferente da situação, um tempo longe pode salvar uma vida. Mesmo se sua criança estiver gritando ou fazendo algo que está te levando a loucura, fique longe até que você consiga lidar com a situação. Se você precisar ligar para alguém, faça.

• Faça 25/50/100 (quantas vezes forem necessárias) polichinelos, flexões ou qualquer forma de atividade física que você possa fazer em movimentos rápidos. Parte da raiva é um acúmulo fisiológico (que dura bastante tempo) de cortisol (hormônio do estresse) no sistema, preparando-nos para o confronto[8]. Precisamos de um escape para isso e atividade física é uma das maneiras biológicas esperadas de nosso corpo processar essa reação fisiológica. Pense na raiva como necessária em situações de lutas, isso explica porque existe um risco aumentado de maltrato às crianças, mas também porque exercícios físicos vigorosos são ideais para dissipar essa raiva.

• Cante e cante alto. Se você precisa colocar alguma coisa para fora, cantar pode não só chamar a atenção das suas crianças, mas também te acalmar e colocá-la nos eixos novamente para lidar com o que quer que seja, que causou a perda do controle emocional, em primeiro lugar. Pode acontecer de você acabar mais feliz e rindo, também.

Agora, tenho que esclarecer que a raiva não significa sempre perda de controle. A raiva pode ser incrivelmente útil quando encaramos um perigo. Mas nossas crianças não são perigosas para nós. É por isso que eu me refiro a esse tipo de resposta como uma perda de controle que levou à raiva.

[Um aparte interessante, quando eu discute sobre a palmada no blog, uma das coisas que chocou a muitos foi o fato de que os protestantes conservadores não mostraram os mesmos efeitos negativos das palmadas que outros grupos apresentaram. Uma possibilidade é que essas palmadas (dos protestantes) não são nunca dadas por raiva, e essa hipótese encontra apoio no fato de que esse mesmo grupo grita muito menos (tem pontuações muito menores em índices sobre gritos), se comparados a todos os outros grupos [9]. No entanto, não tenho ideia do concluir com isso, mas certamente parece implicar que nossas reações emocionais podem ditar muito.]

Perda #3. Perdi o controle da situação.

Vou falar de uma situação hipotética, que apesar de parecer especial, é algo que me sinto culpada e que e muitos pais fazem o mesmo.

Imagine que você disse para seu filho não colocar moedas na boca e um dia, de repente, você o nota engasgando. Você entra em pânico, bate nas costas dele e uma moeda pula pra fora. Você checa se seu filho está verdadeiramente bem e então o que faz? Você grita. Você grita que ele sabe que não deve fazer isso e que poderia ter se machucado ou morrido.

Em resumo, você gritou porque quase aconteceu uma tragédia, e você não teve controle sobre isso.

Esse tipo de grito é diferente de gritar com raiva, mesmo que você sinta inicialmente aquela onda de estresse e cortisol, porque isso é gritar de medo. A diferença?

A resposta ao estresse associada ao medo faz o cortisol se elevar, mas este diminui bem rápido ao invés de ficar alto por um bom tempo, como em situações de raiva [6]. Nesse caso, não há alto risco de perder o controle emocional, porque fisiologicamente seu corpo começa a se acalmar logo após (apesar de notavelmente, algumas pessoas se exaltarem e acabarem em um estado de raiva depois, mas isso provavelmente tem mais a ver com percepções do fato).

A primeira questão então é: precisamos mesmo mudar nosso jeito? Sim, eu argumento que sim, precisamos.

Por que? Por causa do efeito em nossos filhos.

Re-analise a situação acima sob o ponto de vista da criança. Você não acha que a criança já está apavorada? Se deixada quieta, logo após o ocorrido, a criança deverá (por conta própria) entender as consequências do ato, incorporando alguma experiência para utilizar.  

Mas para que esse tipo de consolidação aconteça, uma quantidade ideal de ansiedade é necessária [10], provavelmente a quantidade exata que uma criança tem no momento que elas percebem que estão bem. Se os sobrecarregamos com ansiedade (o que vai provavelmente acontecer se começarmos a gritar com eles depois de um acontecimento traumático), corremos o risco de falha na internalização.

O que você pode fazer? Uma das estratégias mais eficazes pode ser simplesmente contar até dez e abraçar seu filho durante esse tempo. A redução natural de cortisol durante uma resposta de medo, associado ao contato corporal com seu filho (o que deveria ajudar a aumentar a reação de empatia e sensibilidade) pode ser suficiente para suprimir a vontade de gritar e de permitir discutir o que aconteceu com a criança. Mas se apesar disso você ainda se sentir emocionalmente suscetível, você pode tentar as técnicas mencionadas acima para recuperar o controle emocional até que você se acalme. Saiba, todavia, que seu filho provavelmente aprendeu uma lição e tirar um tempo para se acalmar não vai fechar uma janela de oportunidade para que ele/ela internalize a mensagem.

Parece que gritar anda de mãos dadas com a maternidade/paternidade hoje em dia, Mas, não precisa ser assim.

Só esclarecendo, não me refiro a um ou dois gritos para chamar a atenção quando a casa está muito barulhentas – isso não é “gritar” ao meu ver. Acredito fortemente que uma das nossas maiores razões pelas quais gritamos tão frequentemente é que não temos aquele tom de voz que mostra pros nossos filhos que estamos falando sério dessa vez. Aquela voz firme e amável que eles sabem que é para prestar atenção. Nós naturalmente temos isso quando eles estão prestes a se colocar em perigo, mas não é iminente e quase sempre escutam.

Francamente, penso que uma das razões de não nos comunicarmos assim é que estamos muito incertos com a nossa maneira de educar, pra começar. A ideia de ter uma voz que é cheia de amor e certeza no que estamos dizendo para nossas crianças é quase impossível se você está constantemente tentando adivinhar o que fazer como pai/mãe. Temos que trabalhar nossa confiança como pais se quisermos ser bem sucedidos em não gritar.

Mas também temos que abraçar a ideia de “escolher as batalhas”.

Como em tudo, se abusarmos da nossa voz firme ou dos gritos, isso acaba se tornando completamente ineficiente, trazendo grandes frustrações.

Nota: Se você está comprometido a parar de gritar, existe uma grande fonte de pesquisa em inglês chamada “The Orange Rhino”(http://theorangerhino.com/).

Referências:

[1] Diamond J.  The World Until Yesterday. New York,NY: Viking, 2012.

[2] Grusec JE, Davidov M.  Integrating different perspectives on socialization theory and research: a domain-specific approach.  Child Development 2010; 81:687-709.

[3] Rodriguez CM, Green AJ.  Parenting stress and anger expression as predictors of child abuse potential.  Child Abuse & Neglect 1997; 21: 367-377.

[4] Chang L,Schwartz D, Dodge KA, McBride-Chang C. Harsh parenting in relation to child emotion regulation and aggression.  J Fam Psychol 2003; 17:598-606.

[5] Crockenberg S. Predictors and correlates of anger toward and punitive control of toddlers by adolescent mothers.  Child Development 1987; 58: 964-975.

[6] Brook JS,Zheng L, Whiteman M, Brook DW. Aggression in toddlers: associations with parenting and marital relations.  J Gen Psychol 2001; 162:228-241.

[7] Crockenberg S.  Todderls’ reaction to maternal anger.  Merrill-Palmer Quarterly1985; 31: 361-373.

[8] Moons WG,Eisenberger NI, Taylor SE.  Anger and fear responses to stress have different biological profiles.  Brain, Behavior, and Immunity 2010; 24:215-219.

[9] Bartkowski JP.  Conservative Protestant child discipline: the case of parental yelling. Social Forces 2000; 79: 265-290.

[10] Hoffman ML.  Affective and cognitive processes inmoral internalization.  In ET Higgins, DNRuble, WW Hartup (eds.) Social Cognition and Social Development: A Sociocultural Perspective, pp 236-274.  Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1983.

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