Como lidar com agressividade: bater, jogar coisas, chutar e morder.

Como lidar com agressividade: bater, jogar coisas, chutar e morder.

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Extraído de: “When Things Get Physical: Hitting, Throwing, Kicking and Biting” capítulo nove do último livro de L.R. Knost. “The Gentle Parent: Positive, Practical, Effective Discipline” (Sem tradução para o português)

Tradução: Jan Andrade Revisão: Viviane de Medeiros

A ideia de usar consequências, físicas ou de outras formas, como um impedimento para quando a criança bate, é baseada na premissa errada de que crianças pequenas são capazes de premeditar (por exemplo: “Se eu bater vou ficar em apuros. Portanto, não vou bater.”) e de que elas estão escolhendo desobedecer. Como mencionado no Capítulo Oito, entretanto, o córtex pré-frontal, onde razão, a lógica e a premeditação acontecem, é bastante imaturo em crianças pequenas e pré-escolares, e, na verdade, não se desenvolve plenamente até os vinte e poucos anos. Crianças pequenas agem instintiva e impulsivamente mesmo quando não estão estressadas, simplesmente porque é isso que são capazes de fazer de acordo com o seu grau de desenvolvimento, mas, quando elas estão estressadas, mesmo a pequena quantidade de autocontrole que elas podem ter, desaparece e, antes que elas percebam, reagem de forma física ao estresse.

A verdade é que, mesmo se a punição fosse efetiva como um impeditivo, uma resposta gentil à agressão física é literalmente a única resposta que os pais podem dar que não reforçaria a agressão. Responder com agressão ao conectar-se com uma criança, seja física ou verbalmente, apenas reforça a ideia de que “o poder faz direito” e que quem quer seja a figura dominante, num dado momento, tem o direito de usar a força para fazer outros se curvarem a sua vontade.

Obviamente, pais que praticam a disciplina positiva não acreditam que bater em uma criança para ensiná-la a não bater em outras crianças é apropriado ou mesmo uma opção lógica. Contudo, saber que não se deve recorrer à punição física e saber o que se deve fazer ao invés disso são duas coisas completamente diferentes! Então, quais outras opções os pais que praticam a disciplina positiva têm quando confrontados com um pequeno que começou a agredir fisicamente seja por raiva, frustração ou agitação?

1. Supervisão! Supervisão! Supervisão! Quando você tem uma criança que está agressiva, é vital manter contato visual com ela sempre que estiver com outra criança. Mais fácil falar do que fazer, eu sei, mas é importante não deixar criança pequena desacompanhada com uma criança que está tentando lidar com a própria agressividade. Algumas medidas que você pode tomar são: ou levar a criança com você quando tiver que sair do cômodo, ou levar a outra criança com você, ou usar grades de proteção para fechar áreas para que você possa separar as crianças para brincar (de uma forma não punitiva), quando você tiver que sair do local mesmo que momentaneamente.

2. Intervenção. Intervenção consistente por alguém atento, de preferência antes que a situação se intensifique para a agressão física, é essencial para proteger a outra criança. Quando você vir seu filho caminhando para uma resposta física a uma situação, lembrá-lo de usar as palavras ou de oferecer uma solução para o problema, geralmente ajuda a evitar um ataque. Se seu filho já tiver começado a ficar agressivo, mas não de forma completamente intensa, lembrá-lo de “usar suas mãos gentis” dará a ele um pequeno direcionamento mostrando que ele está indo para a direção errada e dará a oportunidade para que ele se redirecione. Sugerir opções alternativas irá equipar seus filhos com as ferramentas que eles necessitam para lidar com sentimentos de uma forma aceitável.

3. Prevenção. Se arranhar ou bater é um problema, certifique-se de manter as unhas do seu filho bem cortadas e tente se antecipar às dores na dentição. Quando se trata de nascimento dos dentes, crianças pequenas estão frequentemente lidando com gengivas inchadas por causa de um dente saindo ou que vai sair, então fique atento a isso. Use colar de âmbar, tenha à mão panos úmidos, gelados e dê um pouco do remédio para alívio da dor receitado pelo pediatra, quando necessário. Essas são ótimas medidas para prevenir mordidas.

4. Lembre e redirecione. Se bater, morder, arranhar, etc., é o resultado de excesso de estímulo, lembrar constantemente os pequenos: “Use as suas mãos gentis. Você pode me mostrar suas mãos gentis?” Ou, ainda: “Dentes servem para sorrir, não morder. Você pode me mostrar seu sorriso?”. E, com isso, oferecer alternativas específicas, como bater palmas para mostrar o entusiasmo deles. Isso ajudará a redirecioná-los para demonstrações mais apropriadas das emoções.

5. Respeito. Respeitar os pertences da criança a ajuda a dividir, oferecendo a ela a chance de escolher. Estar no controle do que precisa e do que não precisa ser compartilhado é um passo proativo para a criança se sentir no controle do próprio corpo e de seus impulsos. Você pode permitir que seu quarto seja uma zona proibida para os irmãos, ou talvez permitir que tenham uma caixa de brinquedos “especiais”, na qual eles possam selecionar os brinquedos favoritos que não precisam ser compartilhados, mas especificar que podem brincar com esses brinquedos apenas em seus quartos, ou, ainda, quando o outro filho estiver dormindo ou ocupado com outra coisa. Se aparecer uma situação em que eles não queiram compartilhar alguma coisa, eles podem ter a opção de escolher colocar aquele brinquedo na caixa de brinquedos “especiais”, mas precisam decidir qual brinquedo querem tirar da caixa para dividir no lugar deste.

6. Válvulas de escape. Crianças que se sentem fora de controle precisam de escapes para os grandes sentimentos. Se a criança está com raiva, pode ir para o quarto e bater em um “João Bobo” ou pode ir para fora a fim de jogar ou chutar uma bola. Mas, se ela está caminhando para um descontrole, talvez precise de ajuda para que processe seus sentimentos, e, nesse caso, uma “jarra da calma” ou “cantinho da calma” (ver capítulo oito) pode ser a melhor opção.

7. Prática. Dramatização pode ajudar com uma criança que repetidamente desliza para a agressão física. Você pode revezar sendo o “que bate” e o “que apanha” (evite usar termos como ‘vítima’ e ‘agressor’ com seu filho) e mostrar a ele como lidar com situações que vêm causando dificuldades.

8. Lúdico. Uma das minhas ferramentas favoritas para lidar com agressividade em crianças pequenas e em idade pré- escolar é brincar de “eu sou seu chefe, mãos!” (também pode ser usado para dentes, pés, etc.), no qual eu os lembro de que são os “chefes” das mãos deles, e peço para que eles digam para as mãos o que elas podem e o que não podem fazer (Por exemplo: “o que você vai dizer para suas mãos se elas tentarem pegar um brinquedo a força?” Então, a criança responde: “eu vou dizer a elas, ‘De jeito nenhum, mãos! Eu sou seu chefe!”). Crianças pequenas adoram a ideia de ser chefe e geralmente respondem bem a esse tipo de brincadeira.

9. Mais brincadeiras. Para crianças pequenas, não verbais, que ainda podem não estar prontas para o “Eu sou seu chefe!”, quando elas batem, beliscam, pegam coisas de forma bruta, etc., tente ‘checar’ se elas têm mãos gentis de uma forma exagerada, beijando as palmas das mãos dizendo: “sim, essa mão é gentil, tudo certo!” Esta declaração assertiva e positiva irá ajudá-las a desenvolver uma autoimagem positiva e definir as bases para o autocontrole, por elas crescerem acreditando que, sim, são pequenas pessoas gentis!

10. Exemplo. Se seu filho já bateu em alguém, você precisará primeiro atender às necessidades da criança ferida. Se você está bravo com seu filho por ele ter batido, e você pode muito bem estar; tudo bem dizer isso a ele, com uma voz calma e deixar que ele saiba que você precisa de um tempo para consolar a criança ferida e para se acalmar antes que esteja pronto para falar com ele. Você está efetivamente sendo um modelo de autocontrole e de estratégias de enfrentamento, componentes importantes para o aprendizado dos seus filhos, a fim de que eles possam controlar o impulso de bater.

11. Ensinar empatia. Mostrar o que a outra pessoa pode estar sentindo, “Quando você arranha sua irmã, isso a deixa magoada. Por que não vamos perguntar se ela está bem? Se ela estiver machucada, talvez a gente precise pegar um curativo.” É muito intrigante para crianças pequenas que elas possam “consertar” alguma coisa, e, muitas vezes, a ideia de que elas têm esse tipo de poder, faz com que fiquem mais propensas a usar as mãos gentis também. O impacto positivo de aprender a pensar e se importar com os sentimentos dos outros, portanto, é o poder real que irá permitir que elas começassem a controlar seus impulsos para bater.

12. Verbalizar. Oferecer palavras para expressar os sentimentos de raiva ou frustração da criança quando ela se descontrola (por ex. “Eu sei que você não quer dividir a bola. Isso te deixa nervoso. Sinto muito por você estar nervoso, mas não posso deixá-lo bater. O que você pode fazer ao invés de bater quando você está nervoso?“). Isso irá ajudar seu filho aprender como verbalizar seus sentimentos com o tempo, ao invés de simplesmente agir de acordo com esses sentimentos. Além disso, irá lembrá-lo das opções que você ofereceu para redirecionar os sentimentos fortes dele para algum escape aceitável.

13. Um lugar para “Time-outs”. Quando um brinquedo é usado de forma incorreta (por ex. Jogado, usado para bater, etc.) e um redirecionamento gentil já foi dado, outra opção é tentar a “Caixa de ‘time-out‘ para brinquedos.” Crianças pequenas geralmente acham o fato de um brinquedo ser colocado no “time-out” bem engraçado e não reclamam da remoção do brinquedo. Quando seu filho decidir que o brinquedo está pronto para se comportar, você pode estimular seu filho a dizer para o brinquedo que ele deve escutá-lo porque ele é o chefe. Novamente, humor é um grande comunicador! Lembre-se de ouvir e de ser flexível. Se a retirada de um brinquedo traz uma resposta negativa muito forte, um “time-in” com seu filho pode ser necessário (ver capítulo oito). Permanecer em sintonia com seu filho o ajudará a ler a situação e responder adequadamente.

14. Expectativas. É importante, em todos os aspectos da criação, frequentemente olhar para trás e examinar suas expectativas para se certificar que elas são razoáveis em relação à idade do seu filho, ao seu estágio de desenvolvimento, ao seu temperamento, etc. Expectativas irreais podem colocar uma pressão significativa em uma criança, além de causarem uma grande frustração e estresse, culminando em comportamentos agressivos, assim como conflitos no relacionamento pais/filhos.

15. Honestidade. Se a punição física tem sido parte da sua forma de educar, removê-la inteiramente da sua caixa de ferramentas educacional é um grande começo para amenizar um pouco da raiva, do estresse e da frustação que estão abastecendo a agressividade da criança. Ao ser honesto com seu filho sobre suas dificuldades em lidar com coisas fisicamente, ao pedir desculpas por usar ameaças, intimidação e dor física para controlá-lo no passado, estará começando o processo de cura no relacionamento de vocês.

Sempre tente manter em mente que comportamentos são formas de comunicação. Ouvir as “entrelinhas” da agressividade do seu filho o ajudará a discernir se a agressividade dele é a comunicação de uma necessidade não atendida, tais como fome, sono ou atenção – (sim, atenção é uma necessidade válida!) – se ele está comunicando uma emoção forte a qual enfrenta problema em processar, ou, ainda, se ele está simplesmente fora do eixo e precisa de um adulto para ajudá-lo a lidar com a situação. Crianças são na verdade grandes comunicadores, apenas, não necessariamente de forma verbal. É nosso dever, como adultos, ‘escutarmos’ o comportamento dos nossos filhos cuidadosamente, com empatia e calma, para, então, oferecermos nossa orientação, sabedoria e apoio.

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