Onde está a linha tênue entre o permissivismo e o autoritarismo?

Autoria: Dr. Laura Markham
Fonte:http://www.ahaparenting.com/_blog/Parenting_Blog/post/Amy_Chua_Where%27s_the_sweet_spot_between_permissive_and_strict/

Tradução: Jan Andrade

Revisão: Andréia Stankiewicz

“Ela é exatamente como eu, pensei, compulsivamente cruel. ‘Você é uma filha terrível’, disse em voz alta.

“Eu sei – Eu não sou como você queria – Eu não sou chinesa! Eu não quero ser chinesa. Porque você não consegue colocar isso na sua cabeça? Eu odeio o violino! E eu ODEIO a minha vida! ODEIO você, e ODEIO esta família! Vou pegar esse copo e quebrá-lo!’

“Quebre”, desafiei.

Lulu pegou um copo da mesa e jogou no chão. Água e cacos de vidro saíram voando, e alguns clientes se assustaram. Senti todos os olhos em nós, um grande espetáculo. Eu tinha feito uma carreira em cima do desprezo pelo tipo de parentagem do ocidente que não consegue controlar seus filhos. Agora tenho a criança mais rebelde, rude, violenta e fora de controle de todas. Lulu estava tremendo de ódio e tinha lágrima em seus olhos. ‘Quebrarei mais se você não me deixar em paz,’ ela gritou”   — Amy Chua

Horrível, certo? Fica claro que esta mãe não estava ouvindo a filha, então as coisas se intensificaram.

Mas espere — esta menina de 13 anos está gritando e quebrando copos em um restaurante?  Não deveria haver alguma consequência severa imediatamente?  Os pais dessa criança fora de controle não deveriam ensiná-la uma lição reprimindo-a?

Penso que muito da fúria contra o livro de Chua (‘Battle Hymn of the Tiger Mother’*) vem da nossa própria ansiedade sobre ser rigoroso versus permissivo.

Temos medo de sermos maus pais. Não queremos ser cruéis, claro. Então gastamos todo nosso tempo naquilo que realmente queremos (notas 10, por exemplo, e duas horas de lições de música diariamente, como Chua exigia de suas filhas).  A filha mais velha da Chua não tocou piano no Carnegie Hall? Talvez se fôssemos um pouco mais duros, não tanto quanto a Chua, claro, mas definitivamente mais rigorosos do que temos sido….. Certamente não nos depararíamos mais com nenhuma grosseria e desrespeito — olhe para o que pode acontecer quando se tornarem adolescentes!

Exceto que… Chua era realmente rigorosa, certo?  E o resultado foram copos quebrados em um restaurante?

Não é de admirar que estamos confusos.

Afinal, onde está a linha tênue entre o permissivo e a severidade?

É mais fácil de encontrar do que você imagina.

Estamos confusos porque estamos nos esquecendo de metade do contexto. Continue me acompanhando, prometo que vale tirar um minuto para entender, e no final teremos a resposta sobre a pergunta sobre o quão rigoroso ser.

Se rigor e permissividade são um contínuo, imagine-os como uma linha horizontal (o que, no gráfico abaixo, é chamado de “Exigências”). Agora, insira uma linha vertical. Esta é um contínuo da responsividade, apoio expressivo, empatia e conexão. Então no final é isso que você tem:

(Obs.1: Negligente – acrescentado mais tarde por Maccoby e Martin.

Obs.2: Responsividade, na psicologia, refere-se a atitudes compreensivas que visam, através do apoio emocional e da bidirecionalidade na comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da auto-afirmação.)

O que isso significa?  Significa que decidir o quão rigoroso ser (o quão exigente) é apenas metade da batalha. Você também tem que decidir o quão responsivo ser.  Diana Baumrind, que fez esse gráfico muitos anos atrás, classificou os estilos de parentagem da seguinte forma:

Muito rigor/baixa responsividade = Autoritário

Pouco rigor/alta responsividade = Permissivo

Pouco rigor/baixa responsividade = Negligente

Muito rigor/alta responsividade = Autoridade amorosa

Após décadas de estudo desses estilos de parentagem aqui está o que pesquisadores do desenvolvimento infantil descobriram sobre os resultados de cada um:

Autoritário – Este, claro, seria o estilo de Amy Chua. Estes são pais que têm grandes expectativas sobre seus filhos, o que é uma coisa boa, segundo mostram as pesquisas.  É assim que crianças conseguem boas notas, aprendem a ser responsáveis consigo mesmas e não se metem em confusão.  Porém, há dois problemas com esses pais.  Primeiro, eles são muito controladores, o que faz com que as crianças se rebelem.  Segundo, eles não oferecem muito apoio aos filhos.  É colocar as meias, endireitá-las e sair voando, do meu jeito ou rua.  As crianças são deixadas sozinhas para aprender a regular suas emoções, então essas pessoas geralmente têm problemas para controlar a raiva.  Estes pais geralmente foram criados dessa forma e pensam que se saíram bem, mas psicólogos chamariam de “defensivos”. Pesquisas mostram que essas crianças acabam procurando afeição nos lugares errados.  Não surpreendentemente, muitas crianças reclusas se ajustam a este perfil.

Permissivo – Estes são pais que oferecem muito apoio aos seus filhos, o que é maravilhoso.  O problema deles é que eles não têm também grandes expectativas.  Alguns deles acreditam que é bom assim, afinal eles não gostariam de interferir no desenvolvimento natural de seus filhos.  Outros apenas não suportam que seus filhos encarem algo difícil mesmo por um instante, então eles inventam muitas desculpas pelos filhos. Muitos desses pais estão tentando não repetir o estilo autoritário de seus próprios pais, então eles vão em direção oposta.  Não me entenda mal – não é possível, jamais, oferecer respeito ou empatia demais a seu filho.  Mas se você deixar seu filho passar por cima de você ou de outras pessoas, o que você estará ensinando sobre relacionamentos?  Todos nós precisamos da experiência de sermos amados durante nossas decepções e sairmos mais fortes do outro lado. Enquanto deixar que as crianças descubram suas próprias paixões é maravilhoso, elas com frequência precisam de ajuda na estruturação de si mesmas para explorar essas paixões ou se sentem desencorajadas e desistem.  Crianças QUEREM agradar, e QUEREM conseguir– dependendo de como isso é definido — mas elas precisam da ajuda dos pais para aprender a disciplina interna a fim de conquistar seus objetivos. Estas crianças geralmente tornam-se egocêntricas e “mimadas” ou vagamente infelizes e inseguras. Amy Chua diria que a maior parte dos pais americanos se encontra nesta categoria. (Eu discordo.)

Negligente (não se envolve) – Sempre houve pais que não puderam dar aos filhos o amor e atenção que eles precisavam, seja por alcoolismo, narcisismo ou apenas pressões externas como a necessidade de trabalhar em dois empregos para sustentar a família.  Estes pais que terceirizam parecem ser os predominantes hoje em dia, ao menos em algumas comunidades, onde se costuma colocar as crianças em creches cada vez mais cedo por períodos cada vez mais longos, e então quando eles crescem são empurrados para os braços de seu grupo de amigos. E assim temos pouca ou nenhuma influência sobre eles quando chegam na adolescência.  Estes pais algumas vezes somem no vício das drogas ou abandonam a família, mas existem muitas famílias aparentemente normais que os pais estão muito focados no trabalho ou na vida social para se conectar profundamente com suas crianças.  Não é incomum ver esses pais esbanjarem dinheiro com seus filhos ao invés de dar atenção.  Isto é entendido pela criança como uma mensagem de que ela não merece ser amada. E se ambos os pais não são envolvidos na criação do filho, é possível que a criança irá abusar de substâncias ou ter outros problemas graves mais tarde.

Autoridade amorosa – Pais com autoridade amorosa (ou disciplina positiva) oferecem aos seus filhos muito amor e apoio, como os pais permissivos.  Mas eles também têm altas expectativas, como os pais autoritários.  Expectativas de acordo com a idade, claro – eles não esperam que uma criança de três anos arrume seu quarto sozinha.  Mas eles podem estar ajudando aquela criança de três anos a arrumar, fazendo disso algo divertido, por repetidas vezes, de forma que com seis anos ela poderá de fato arrumar seu quarto sozinha.  Estes pais estão envolvidos — mesmo quando exigem.  Eles esperam jantares em família, muitas discussões em relação a faculdade, boas notas, comportamento responsável.  Mas eles não estão controlando o tempo todo. Isso significa que eles deixam que acriança faça do seu jeito, e eles dão muita liberdade além de suas regras específicas.  Eles escutam, e eles buscam encontrar soluções/boas soluções que contemplem a todos – adultos e crianças.  Eles também oferecem a seus filhos total apoio para aprender como atingir essas expectativas. Porque os pais estão confortáveis com suas emoções e são capazes de regulá-las (aprenderam com inteligência emocional), estas crianças aprendem cedo a regular suas próprias emoções e portanto são mais abertas a orientação.  Não é de surpreender que estas crianças sejam próximas de seus pais, muitas vezes descrevendo-os como as pessoas que eles mais confiariam para falar de algum problema. Estas crianças geralmente são boas alunas na escola e são também aquelas descritas pelos professores como responsáveis e bem quistas; simplesmente legais, consideradas crianças agradáveis de se ter por perto.  Este estilo de parentagem, é claramente, segundo pesquisas, o que educa as crianças mais bem ajustadas.

Amy Chua disse: “Duvido você me mostrar UMA casa sequer onde há adolescentes e em que não há gritos e conflitos”.   

Bem, eu tenho um filho de quinze anos e um de dezenove e nós nunca gritamos.  De fato, temos divergências, claro — acompanhadas de humor e empatia, dos adolescentes tanto quanto de nós.  Mas gritos, nunca.  

Esta é a diferença entre lares autoritários e lares com autoridade amorosa.

Você está tendo um momento “Aha!”?   

Muitos pais pensam que o melhor caminho para educar é o caminho do meio entre rigidez e exigência.   Mas isso significa que eles têm expectativas baixas.

E então o que nós podemos aprender com a Amy Chua é que é aceitável tanto colocar limites como ter altas expectativas. Porque a melhor parte do estilo autoritário é ter expectativas tão altas quanto o estilo de autoridade amorosa. Mas, na autoridade amorosa não há permissividade, e nenhum meio termo em nossas expectativas. Afinal, por que você iria comprometer os valores que são realmente importantes para você, como, por exemplo, a forma que as pessoas na sua casa falam umas com as outras, ou se eles fazem a lição de casa antes do facebook?

Mas — e isso é um grande mas – as crianças apenas aceitam as altas expectativas de pais com autoridade amorosa por causa do apoio que recebem.  Isso significa que junto com os limites, essas crianças recebem grande empatia e ajuda passo a passo para gerenciar a si mesmas. Elas também vivenciam o respeito constante, o que significa que seus pais escutam o que é importante para elas e encontram soluções/boas soluções. (Esta é uma das maneiras de evitar que precisem humilhá-las em restaurantes para ter sua atenção.)

A diferença entre Autoritarismo e Autoridade amorosa — a diferença entre Amy Chua e eu — é a compreensão e respeito oferecidos à criança. A diferença entre Permissivismo e Autoridade amorosa — entre muitos pais americanos e eu — são as altas expectativas.  E a diferença no envolvimento parental deveria ser óbvia – os pais com autoridade amorosa são os mais envolvidos dentre todos os estilos de parentagem.  O que provavelmente os torna pais mais felizes.

Então Chua fez meio certo.

Expectativas elevadas, mas também muito apoio, é o que ajuda as crianças a serem bem sucedidas.

Claro, isto levanta a questão sobre qual expectativa exatamente você tem sobre o produto final da criança que você teria orgulho de ter educado.  Chua focou em boas notas e proeza musical.  Este é um bom começo, mas que tal em QUEM a criança é de verdade?  Gentileza, compaixão, respeito, piedade,aceitação das nossas imperfeições humanas… Assim como todos nós que ainda estamos aprendendo a amar a nós mesmos, aí está o verdadeiro trabalho.

*Nota: Amy Chua é autora do livro ‘Grito de Guerra da Mãe-Tigre’ – que conta a história de uma mãe e suas duas filhas. As mães-tigres vêem a infância como um período de treinamento. Para Sophia e Lulu, isso significava aulas de mandarim, exercícios de rapidez de raciocínio em matemática e duas ou três horas diárias de estudo de seus instrumentos musicais (sem folga nas férias, e com sessões duplas nos fins de semana).

‘Grito de guerra da Mãe-Tigre’ expõe o choque das visões de mundo oriental e ocidental no que diz respeito à criação dos filhos. Mas é basicamente a história das expectativas de uma mãe em relação às duas filhas e os riscos que está disposta a enfrentar para investir no futuro de ambas. Era para ser uma história de como os pais chineses são educadores mais competentes que os pais ocidentais. Em vez disso, narra um amargo choque entre culturas, um sabor fugaz de glória e a forma como a mãe foi humilhada publicamente por uma menina de treze anos.

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