Diga mais SIM do que não!

[Diga SIM sempre que possível e NÃO apenas quando necessário.]

“Não toque no aquecedor. Não pule na cama. Não bata no seu irmão. Não bagunce minhas gavetas. Não chateie. Não grite. Não atenda o telefone, pode ser um cliente. Não brinque com o controle remoto da televisão. Não se aproxime do CD do papai. Não chore. Não se levante da mesa. Não interrompa. Não fique vendo desenho animado. Não faça xixi. Não acorde sua irmãzinha. Não brinque com minha agenda. Não desarrume o quarto. Nãããooooo!!! Eu lhe disse que não!!!

Se pudéssemos nos gravar – ou, melhor ainda, nos filmar – durante um dia qualquer em nossa casa, perceberíamos a quantidade de vezes que dizemos “não” aos nossos filhos, antes de qualquer outra palavra. Obviamente temos razão, uma vez que estamos lidando com situações perigosas ou incômodas para os demais. Mas é imprescindível constatar que estes “não” são, de fato, espantosamente ineficazes, embora nos vejamos obrigados a repeti-los sem cessar. Por quê? Porque usamos o “não” como primeira instância, e não como última.

Poderíamos, no entanto, tentar o seguinte:

1. Reconhecer as necessidades da criança e verbalizá-las ou legitimá-las.
2. Verbalizar o que acontece comigo ou expor a realidade objetiva.
3. Propor acordos, optando a princípio por uma atitude de “sim” que depois inclua o “não” correspondente.

1. Reconhecer as necessidades da criança é fácil quando usamos a palavra mágica “Ah…”. “Ah!… Você tem vontade de explorar os aquecedores da casa”; “Ah… Como você se diverte pulando na cama”; “Ah!… Você corre para atender o telefone tão rápido quanto a mamãe e o papai”; “Ah!… Você está irritado e com muita vontade de brincar com seu irmão, justo agora que ele está tão ocupado com as lições de casa”, “Ah!… Você quer ouvir aquela música que o papai gosta” etc.
Isso não significa que concordaremos com qualquer coisa que a criança queira. Significa apenas que vamos reconhecer e nomear e, se for necessário, teremos de interpretar, pois às vezes o pedido é formulado de maneira desajeitada ou confusa. Frequentemente, é um pedido deslocado. Um exemplo: a criança esperneia no supermercado por causa de um brinquedo que não aceitamos comprar, embora saibamos que, na realidade, ela está com sono, com fome e estressada.

2. Para verbalizar o que acontece consigo, ou expor a realidade objetiva, os adultos precisam procurar respostas alternativas. Devem levar em conta que o impulso da descoberta, mais do que presumível no processo de desenvolvimento saudável das crianças pequenas, é tolhido nos lares que não se adaptaram aos menores e mais ainda quando os pais não têm paciência. As limitações de espaço e de tempo que interferem na liberdade e nas tentativas de aquisição de conhecimento por parte das crianças podem ser compensadas pela atenção e o interesse dos mais velhos.
Por exemplo: “O que você acha de irmos mexer juntos nos aquecedores da casa? Eu lhe mostro onde podemos tocar, nas beiras, e onde não podemos colocar os dedinhos. Temos de fazer isso sempre juntos. Também podemos mexer nas chaves da caixa de luz. Vamos ao outro quarto. Vamos à cozinha. Vamos à varanda…Parece que aqui não há aquecedores…”
Ou então: “O que você acha de fazermos um bolo? Podemos pedir ao Juan para nos ajudar depois que terminar a lição de casa.”
Ou até: ”Vamos ouvir aquela música que o papai gosta, mas eu coloco os discos. Aperte este botão, e agora este outro…”
Pensar primeiro no “sim” e depois no “não” permite satisfazer a criança com relativa facilidade. Assim, o “não” passa a ser apenas um “não”. Não adquire dimensões de privação da totalidade de seu ser. Há coisas que podem ser feitas, sim; basta ter um pouquinho de vontade.

3. Estabelecer acordos é possível quando reconhecemos e nomeamos as necessidades e desejos de ambos. Como se consegue isso? Comunicando-nos. Quem tem de fornecer as palavras adequadas? O adulto.
Por exemplo: “Eu entendo que você está com muita vontade de desenhar na minha agenda, mas para mim é muito importante que ela fique limpa. O que você acha de desenharmos juntos neste caderno?”
Ou então: “Você passou o dia inteiro me esperando, também esperou seu irmão e aqui em casa estamos todos ocupados. Deve ser muito frustrante sentir que ninguém se ocupa realmente de você. Estou esgotada, mas se nos deitarmos um pouco juntos poderemos cantar umas músicas até dormirmos e amanhã acordaremos um pouquinho mais cedo para brincar.”

Todas essas opções requerem um mínimo de dedicação. Esse é todo o segredo para se obterem bons resultados: ou dedicamos com sinceridade uma parte do dia para alimentar as relações afetivas com nossos filhos ou a vida cotidiana se transforma em um inferno de proibições, com tensão e irritação como conseqüência básica. Porque as crianças “terríveis” são filhas de pais que olham para o lado oposto. Finalmente, são decisões pessoais. Não há crianças difíceis; há adultos que optam por destinar, prioritariamente, atenção e energia a outros assuntos.

Os adultos que não atendem, sistematicamente, aos pedidos de uma criança deveriam se perguntar sobre a satisfação dos próprios desejos. Interrogar-se sobre sua felicidade, se estão contentes com o que são ou fazem. Se têm muita raiva ou se estão em paz. Se sentem-se frustrados… E, nesse caso, como podem remediar as frustrações. Se estão se sentindo desamparados… E então ver quem pode cuidar deles. Talvez sejam pessoas a quem tudo foi negado… E não aprenderam outra coisa. Têm a intenção de serem bons pais… Mas não têm paciência. O “não” está bem arraigado neles e faz parte de sua visão. Não se dão conta de que mantêm uma visão negativa de suas esperanças, seus projetos, seus gostos. Costumam se fixar primeiro na metade vazia do copo e não na metade cheia.

Se fomos crianças maltratadas ou emocionalmente abandonadas e não temos uma consciência clara disso, a possibilidade de abusar da autoridade que nos confere o simples fato de sermos “grandes” manifesta-se como uma vingança sedutora quando estivermos no exercício do poder. Creio que os adultos deveriam refletir constantemente sobre como lidam primariamente com aquilo que podem fazer. Tanto positiva (ou seja, a favor de todos) como negativamente (em benefício de ninguém). Para saber se abusamos do nosso poder ou se o usamos para propiciar boas relações, é necessário contar com uma imensa honestidade pessoal.

Espero que me compreendam: Não afirmo que nunca diremos “não” a uma criança, pois isso seria um despropósito. Quando o “sim” é recorrente e facilitador, o “não” aparece de vez em quando, oportunamente, e é efetivo, porque tem sentido, porque se refere a um fato pontual que o adulto desaprova e a criança compreende muito bem, diferenciando-o do “não” constante e desprovido de sentido.

As crianças experimentam o “não” sistemático como uma forma pobre de se relacionar, sem abertura, uma situação perdida de antemão. Não é crível. E, para as crianças, é caótico descrer de seus pais. Tentemos ao menos contar os “nãos” que pronunciamos no dia de hoje, e ofereçamos aos nossos filhos um mundo mais amável.”

(Laura Gutman, em A maternidade e o encontro com a própria sombra)

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